Página 7 de Curtas e Mínimas, por Ione Mattos

(I)
A velhice tem sido o Alzheimer das minhas certezas.
(II)
Estar velho obrigado em amanhãs não é o mesmo que envelhecer. Envelhecer é ir amanhecendo hoje todo dia, como um presente de existir.
(III)
Os restos de nossas experiências são um quebra-cabeça cujos cacos formam a teia da nossa vida, como um vitral. É um desenho de enredos partidinhos, colados para dar a ideia de sentido. Tem lá a sua beleza.
(IV)
Tenho requintes de existência que chegaram de estar velha: percepções de desimportâncias; contemplações de vácuos de pensamento; observações de valores teoricamente imperfeitos do mais alto teor de utilidade prática; abandonos de estar em delícias de ter; fascínios por inutilidades; sensações de déjà vu; descompromissos com a normalidade.
(V)
Também da velhice recolho xepas: sonhos com validade vencida; declínios em desencontro; planejamentos inúteis; memórias de impossíveis; possibilidades descumpridas; acúmulos de males francamente dispensáveis; memoriais de despedidas; mementos de ondes me morri. Essas são as sombras das saudades, o ruim do tempo, o murcho da identidade. Rationale: o cérebro é programado para não esquecer os extremos da emoção ─ para-males ou para-béns.


página anterior